evandro nunes lima: ancestral do tombamento
- Dra. Larissa Amorim Borges
- 25 de nov. de 2025
- 7 min de leitura
Autora: Dra. Larissa Amorim Borges
Eu vim lá da mata eu vim
E quis trazer para você o meu amor, o meu amor
O amor que lhe ofereço é sincero
O amor que lhe ofereço é eterno
O meu amor, o meu amor
(evandro nunes)
Certo feita, no final dos anos 1990, ao passar pela avenida Pedro I em um ônibus vermelho que vinha da periferia de Venda Nova para o centro de Belo Horizonte, minha atenção foi capturada por uma figura que caminhava esguia e esbelta. Com uma calça jeans azul clara quase branca com rasgados e uma camiseta verde fosforescente. Sua pele preta retinta como a noite em contraste com o fosforescer da blusa, dialogava com o sol, que o seguia em ato de cumplicidade e reverência. Aquela pessoa caminhava majestosamente com uma linda coroa de cabelos crespos sobre sua cabeça. Aquela imagem em movimento, ancestral do tombamento, alcançou minha alma como o som de um tambor a perguntar: Quem será? De onde vem? Para onde vai? Será que um dia vamos nos encontrar?
Naquela ocasião eu não tinha as respostas. Mas, como um presente da ancestralidade, pouco tempo depois, pude saber e conviver com aquela pessoa de sorriso radiante e olhar profundo. Intelectual orgânico e ancestral que presentifica o futuro com sensibilidade e coragem em cada gesto e palavra. Sua presença afetuosa e intensa, poeticamente brinca entre os versos das desigualdades e opressões, tecendo realidades de esperança e emancipação.
Conhecer e conviver com evandro nunes foi e é um presente ancestral que recebi em 2001. Desde o início, senti e ainda sinto, que todas as pessoas deveriam ter o direito e a honra de conviver com evandro nunes pelo menos um dia na vida. Sua obra é legado e herança para as gerações presentes e futuras, que poderão conviver com ele a partir dela.
Referência, compadre, amigo, irmão, ator, diretor, poeta, pedagogo, arteducador, MC, pessoa preta de sexualidade dissidente que é persistente e flexível, mas não se dobra as opressões. Não sei ao certo precisar quando e como fomos nos aproximando, mas hoje sinto como se ele sempre estivesse presente. Talvez tenha sido a partir do Movimento de Juventude Negra e Favelada, mobilização crítica que politizou as (re)existências e as identidades de corpos negros jovens em diversas comunidades de Belo Horizonte e da Região Metropolitana de BH a partir da compreensão de que “Os brancos não são chamados, mas também não são mal vindos”.
Além do tempo, gingando sabiamente entre as fronteiras territoriais, evandro nunes sempre se posicionou com ousadia e autenticidade frente aos disparates da branquitude e os horrores da heteronormatividade. Sua vida e obra vem confrontar com inteligência e sensibilidade o genocídio de jovens negros nas periferias e a invisibilidade dos artistas e artes negras em múltiplas linguagens. Evandro é palavra que quebra o silêncio de morte declamando em ato de (re)existência o enfrentamento cotidiário ao racismo, à lgbtfogia e a todas as formas de opressão.
evandro nunes é desejo de vida e materialização da potência de aquilombamento no cotidiano. De Santa Luzia para o mundo, atuando nos palcos da marginalização para produzir visibilidades positivas, descolonialidades, contra colonialidades, emancipação e soberania. É um Exú caminhante, amigo da bruxa mais caridosa, é aquele que sonha com amor que vem do mar e ama com intensidade cada ser com qual se conecta. Entre um gole de refrigerante preto e uma mordida em um biscoito recheado de chocolate, gargalha insubmissões, insurgências e arte.
Em nossa jornada na Cultura Hip Hop tivemos como palcos de construção e expressão a organização de mulheres Negas Ativas e o grupo de rap Negras Ativas, o Coletivo Hip Hop Chama e o grupo/ espetáculo Atitude de Mulher. Em um contexto onde prevalecia o machismo e a homofobia evandro nunes chega com sua presença e arte promovendo cura o equilíbrio para nossa comunidade e para si mesmo. Sua contribuição no Hip Hop foi uma semente de afeto e sanidade. De olhos fechados ele nos fez sentir o cheiro de outras possibilidades de relação entre nós e com nossa arte, inaugurando uma etapa fundamental no caminho de superação do machismo, da heteronormatividade compulsória e da Lgbtfobia na Cultura Hip Hop de Minas Gerais.
Tecendo a teia da história, bordando com ela a frente e o verso, entre a arte e a atuação política evandro nunes é percursor de processos de reflexão sobre as masculinidades tóxicas e saudáveis, sobre negritude, afetividade e sexualidades dissidentes que tornaram possível a construção dos vários grupos que hoje pelo Brasil discutem politicamente estes temas, sendo também uma das principais referências da Rede Afro LGBT.
“Menina bonita do laço de fita me diz: Porque você é pretinha e tão bonita?” Quantas gerações aprenderam a beleza de ser negro, cantando e ouvindo histórias? Em torno de evandro nunes várias gerações têm tido o prazer e a oportunidade de acessar reflexões profundas e referências positivas sobre ser negro, sobre ser LGBT e ocupar o mundo com plenitude através da dimensão política e de militância expressa em sua vida e obra
Em seus múltiplos fazeres e saberes evandro nunes personifica a (re)existência e a sabedoria que permanecem porque tem a ousadia de se transformar como um redemoinho de vento, que rodopia na encruzilhada da história movendo identidades e colocando corpos e sonhos em movimento. Atuando, declamando, cantando, dirigindo, escrevendo, fazendo palestras, ministrando cursos e oficinas evandro nunes é aquele que mandinga com a palavra em todas as suas formas e possibilidades. Cria palavras, sons, gestos e linguagens que nos projetam para um futuro negro e ancestral nos palcos de dentro e de fora.
Ocupa politicamente a cidade de forma poética e potente transita entre Chuveiradas e Mangueiradas no Xaxá, rodas de samba e de rima, escreve, dirige e atua nos palcos com diversos personagens e pelas ruas com incrível Lili Viatura. Todas estas e muitas outras histórias vivem e residem em sua capacidade de operar como uma figura de (re)exsistência e crítica social por meio da astúcia e da irreverência.
Uma vida que celebra meio século e uma obra que com trinta anos já se consagra eterna, majestosamente utiliza a malandragem e a inteligência da rua não apenas para sobreviver, mas para desmascarar as estruturas de opressão de forma sutil, estratégica e contundente. Brinda a humanidade com uma sagacidade, que permite e convoca para subversão da ordem estabelecida, promovendo insurgência preta na cena artística mundial a medida que transforma as vulnerabilidades impostas pela sociedade em uma poderosa ferramenta de crítica, reflexão e aquilombamento.
evandro nunes se destaca não apenas como um artista que contribuiu para a cena de múltiplas expressões artísticas, mas como um intelectual que transformou a militância e a atuação cênica em conhecimento inovador, formalizado e replicável. Sua importância para a arte reside em fornecer um vocabulário teórico e uma metodologia rigorosa (Estética da Atitude e Poética da Negrura) que solidificam a Arte Negra como uma força de ruptura cultural e um modelo cênico baseado em valores afro civilizatórios.
Com a presença de evandro nunes na vida e nos palcos temos um importante legado a celebrar e valorizar, pois seu trabalho nos oferece uma crítica sociopolítica situada e afro referenciada capaz de fornecer ferramentas conceituais, metodológicas e práticas para a análise e denúncia do trauma diaspórico. E com muita sensibilidade, vai além, da produção de fissuras e rasuras, promove a construção de perspectivas e possibilidades de outros presentes e futuros para as subjetividades e artes negras. Suas obras promovem equidade, diversidade, saúde mental, inclusão e invenção a medida que seguem desafiando os padrões de desigualdade e inferiorização que ainda persistem em nossa sociedade.
Acredito que a educação e a arte são ferramentas fundamentais para promover a equidade e transformar a sociedade, como um griot contemporâneo evandro nunes vem atuando nesta construção de maneira sensível e majestosa, poética e potente. Ao compartilhar arte, produzir conhecimento e promover a reflexão crítica, contribui com sua vida e obra para que as pessoas se reconheçam como agentes de mudança e possam ser quem realmente são em sua melhor versão.
Sua importância política está enraizada na sua capacidade de fazer das pessoas e organizações com as quais tem contato, agentes de aquilombamento e de descolonização social e corporal. Através de sua força educativa e pedagógica, combate o racismo e a invisibilidade e produz novas referências artísticas, intelectuais e identitárias que motivam o engajamento de crianças, jovens, adultos e idosos.
Como olhamos hoje para o trabalho de Abdias Nascimento, as gerações presentes e futuras beberão das fontes consolidadas pela vida e obra de evandro nunes. Ele é a própria encruzilhada que interseciona experiências profundas que trazidas das lutas sociais, dos palcos e da ciência gerando um saber replicável de intervenção social, artístico e educacional.
A vida e obra de evandro nunes configuram um movimento que assegura que as experiências de (re)existências, nascidas no contextos periféricos, sejam elevadas a uma teoria globalmente válida, capaz de contribuir decisivamente para o futuro do ensino, da arte, da luta antirracista e da luta contra a LGBTfobia no Brasil. O trabalho de evandro nunes é, portanto, uma estratégia de longo prazo para a permanência e a difusão do conhecimento produzido pela insurgência negra e mais ainda, é contribuição para que esta insurgência se perpetue e se aprimore ampliando a potência de descolonização de corpos e identidades negras na diáspora. Sinto que sua presença e obra permanecerão além do tempo e do espaço como um legado intelectual, artístico e político para toda sociedade.
Tenho a honra de conviver com este coração que pulsa intelectualidade e arte. evandro nunes se consagra, assim, como uma encruzilhada viva, onde o tempo e o espaço se dobram em favor da diáspora. Ele é portal de um futuro negro e ancestral, garantindo que a sabedoria da periferia e a urgência da militância se tornem um legado replicável e crescente. Sua (re)existência e obra são testemunho vivo de que a arte, quando praticada com atitude e negritude, é a mais potente ferramenta para descolonizar corpos e mentes, insurgir sonhos e assegurar a soberania de identidades que se recusam a morrer no silêncio. Sua obra é a amostra poética de que a luta pela equidade é uma celebração contínua da vida.
evandro nunes é um crioulo que não apenas grita. Canta, dança, escreve, atua, dirige, educa, (re)existe e faz muito mais. O que muitos fazem hoje como inovação, ele já fazia há muito tempo atrás.



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