Descolonizar o Corpo: Entre a Memória e o Esquecimento
- Teatro Negro e Atitude (evandro nunes e Marcus Carvalho)
- 25 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
Que corpo é este que carrego? Corpo atravessado por memórias que não escolhi, mas que insistem em pulsar sob a pele. Corpo que dança, mas que já foi açoitado; corpo que fala, mas que tantas vezes foi silenciado. Corpo marcado por uma história que o tempo tentou enterrar, mas que resiste em reaparecer. É nesse território de tensões que se inscreve a pergunta: o que significa descolonizar o corpo na perspectiva do Teatro Negro e Atitude, quando pensamos a relação entre memória e esquecimento?
A colonização não foi apenas uma ocupação de terras. Foi também uma invasão da carne. Um projeto de apagamento da humanidade de povos africanos sequestrados, arrancados de suas línguas, suas cosmologias e seus modos de existir. A travessia atlântica não transportou apenas corpos: transportou mundos (GILROY, 2012). E ao chegar aqui, esses mundos foram violentamente reorganizados, domesticados, silenciados.
No Brasil, o corpo negro foi transformado em território colonizado. Um corpo a ser moldado segundo padrões europeus de comportamento, estética, ética e pensamento. Um corpo que deveria esquecer suas origens para sobreviver. Um corpo cuja memória foi sistematicamente apagada para que outro projeto de humanidade pudesse se afirmar.
Descolonizar o corpo, portanto, é um gesto de restituição da memória. Não se trata de negar as contribuições da cultura europeia, mas de devolver às matrizes africanas o direito de existir como referência legítima. É reabrir caminhos interditados. É reativar saberes adormecidos. É lembrar o que nos foi ensinado a esquecer.
Nesse sentido, a descolonização do corpo não se reduz à fisicalidade. Ela atravessa a mente, o espírito, a ética e a estética do sujeito-artista-brasileiro-negro. Envolve repensar o próprio fazer teatral: do processo criativo à forma de produção, da dramaturgia às relações interpessoais.
Na visão do Teatro Negro e Atitude, descolonizar o corpo é muito mais do que estar em cena: é fazer do teatro um território inteiro de reinvenção. Não se trata apenas da presença do ator ou da atriz, mas de suavizar, com delicadeza e firmeza, as marcas colonizadoras que moldaram nosso pensar ético e nosso sentir estético. É rasurar não só a imagem dos espetáculos, mas também os caminhos invisíveis que os sustentam - da produção às relações cotidianas que os atravessam. Nesse gesto de criar o novo, brota também o desejo de experimentar se essa prática é uma chama que arde apenas no seio do grupo ou se pode acender outros palcos, outros corpos, outros mundos.
Para avançarmos nessa reflexão, precisou-se retornar às nossas próprias trajetórias de vida, indissociáveis das trajetórias artísticas que nos moldaram. Esse movimento de retorno, profundamente descolonizador, nos conduziu à academia e fez emergir conceitos que hoje balizam o fazer do grupo: a Pedagogia da Insurgência, a Estética da Atitude e a Poética da Negrura. Entrelaçados, eles traçam caminhos que libertam o corpo, tecem novas narrativas e colocam o corpo negro no centro da cena, reconhecendo nele toda a força criadora que enriquece a arte e a cultura brasileira.
Descolonizar, nesse caso, não é apenas mudar temas: é transformar relações, processos e caminhos da arte. É aquilombar-se. É imprimir no palco uma justiça e uma presença que desnorteiam o olhar hegemônico, abrindo espaço para o impensável, para o novo. É rasurar narrativas coloniais e, ao mesmo tempo, escrever outras que promovam o corpo negro e/ou dissidente ao centro: seja no pensamento ou no fazer.
No entanto, como lembra Leda Maria Martins (2021), o corpo é um arquivo vivo: ele não esquece, mesmo quando silenciado. Cada gesto, cada canto, cada rito em cena reinscreve a memória. O corpo descolonizado não apaga o passado, mas o reinscreve em outra chave. Ele negocia com o esquecimento, mas se recusa a ser soterrado por ele.
Assim, o gesto da descolonização é também um gesto de memória insurgente. Uma memória que não se contenta em ser folclore ou patrimônio morto, mas que se assume como prática viva.
Porque, no Teatro Negro e Atitude, lembrar é resistir. Lembrar é criar. Lembrar é (re)existir.
REFERÊNCIAS:
GILROY, Paul. O Atlântico Negro: modernidade e dupla consciência. Tradução de Cid Knipel Moreira. São Paulo: Editora 34, 2012(2ª edição)
MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar, poéticas do corpo-tela/ Leda Maria Martins. - 1, ed. Rio Janeiro: Cobogó, 2021. 256 p
nunes, evandro. O Teatro Negro e Atitude no tempo: o tempo no Teatro Negro e Atitude. Belo Horizonte, Javali, 2021.



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