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Cristal Azeviche: Coragem Criativa, Uma Vida Militante

Cristal Azeviche: Coragem Criativa, Uma Vida Militante

  Olhei evandro nunes circulando pela cidade de Belo Horizonte. Era uma pedra preciosa, um tesouro guardado entre as montanhas, um mistério resguardado porque aquele século não suportaria seu brilho preto. evandro sempre foi vital e transcendente como as rezas que eu ouvia e aprendia no quintal de minha casa ou nos quartos secretos de meu terreiro, que nos transportam a mistérios ancestrais e desvendam a África em nós. evandro nunes era, de fato, encantado, e nem nós sabíamos. Eram diferentes os desafios que ele propunha com o corpo como modelo: romper com o cinismo, o mau-caratismo, a vergonha de si, romper com a violência e com o ódio, afirmar um amor não tolerado, espalhar canções e encenações onde não chega nem o gás nem a eletricidade. Isso se lia em seu manifesto corpo/vida/território.

  Sua roupa de sucata — plásticos, metal e vidro — era um brilho resplandecente como uma estrela que se sabia viva. A coragem, maior que todo o Rio Arrudas em dias de enchente. O reluzir da serpente nagô em sua cabeça coroada de arco-íris e chuva fina de verão: a festa que sua presença sempre ativava quando ele estava entre nós.

  Eu notei evandro nunes entre toda aquela multidão de pessoas circulando entre a Guaicurus e a Avenida Paraná, ruas de comércio e de gozos proibidos. evandro já desafiava as normas. Entre a Amazonas e a Timbiras, entre a Bahia e a Tupi, evandro celebrava a vida e nos encantava com a arte viva erguida em seu próprio peito.

  Algumas vezes sentei-me na Praça Sete, habituando-me ao barulho das ruas, comovido com o som dos pregoeiros e com o brilho solar da cidade de trens e montanhas. Eu vi evandro, numa visão que encheu meus olhos: ele passando garboso e indiferente cidade adentro, e eu marcando sua passagem em meus pensamentos de baiano deslumbrado com aquilo tudo que via ao redor. A cidade entre as montanhas, a cidade entre os morros, a cidade macerada por sons de batuques de pretas do Congo, vozes ancestrais se reunindo à noite, toda noite, quando a poesia se alimentava à sombra das grandes palmeiras imperiais que enfeitam um quarteirão da Avenida Amazonas, entre Praça Sete e Contorno. Eu ouvia os cantos de minha avó me colocando para dormir, e dormia.

  A cidade de Belo Horizonte, eu percebia aos poucos caminhando, me falava de uma identidade única que se comunicava com minhas células alimentadas por samba de roda, poesia de blocos afro, rezas de Recôncavo e paixões deixadas na estrada. Ficaram ali, em mim, e existiam escondidas nas sombras das ladeiras que eu ia descobrindo.

  Eram meados dos anos de 1990. Precisamente, meu ônibus partiu de Salvador num dia chuvoso e parou na rodoviária de Belo Horizonte em 12 de maio de 1994. Encontrei o sorriso de Ive, uma linda militante do MNU, na plataforma de desembarque. Caminhei com ela até a sede do Movimento Negro Unificado (MNU), ali pelos lados do Mercado Central, acima do Sindicato dos Marceneiros, e rumamos para a Praça Sete, onde acontecia uma manifestação do Dia Nacional de Denúncia Contra o Racismo.

  Tudo em nós reverberava mudança, luta, ruptura e um profundo orgulho preto, em palavras de ordem, abraços, reencontros e uma indignação indisfarçada: “contra a brutalidade policial”, “pela dignidade da mulher negra”, “pelo nosso senso de unidade racial”, “beije sua preta em praça pública”.

  Eram palavras de ordem indispensáveis num contexto de participação política preta, e eu estava ali perdido entre a multidão.

  Perdi de vista minha amiga e guia Ive. Ela foi resolver os problemas de estrutura do evento, e eu, tímido e exibido, me inscrevi para falar um poema. Eu nunca me escrevia para recitar poemas: eu tomava meu direito ao ar e colocava nele todo o peso de meus sonhos em palavras.

  Subi ao palco nervoso, trêmulo, mas disposto a representar a Bahia no meio daqueles pretos e pretas elegantes, garbosos, vestindo roupas fechadas, protegidas daquele frio rigoroso de Minas Gerais. Eu nunca tinha enfrentado tamanho frio: a pele ressecada, os lábios descascando, as mãos trêmulas. Mas o calor da Praça Sete com todos aqueles pretos e pretas não me deixou sentir mais nada além do orgulho de ser militante.

  Ali conheci Sonia Augusto, Abilde Maria e Roquinho. Juntos com Silvia Lourenço, Josemeire, Vanessa Beco, Marcos Cardoso, Geraldo Herzog, Pabline e Valdete Cordeiro, seriam o núcleo familiar mais fantástico dessa terra, antes de nascer a atriz Dara Aiyê, minha filha e filha da querida Maria da Piedade. Todos e todas usavam botas, toucas, cachecóis, casacos, luvas. Eram altivos e altivas em seu andar e no sotaque discreto, caipira, poético. Amavam clubes de dança e museus, construíam política em toda a cidade, eram o centro motor daquela Belo Horizonte que eu chegava.

  Eu gritava em plenos pulmões, microfone na mão, o olhar entre a multidão, a alma liberta pelo som do poema que saía de meu peito em chamas:

  “Santa Negra, anegrai

  Anegrai nossas cabeças, Santa Negra, nos falai

  De nossos deuses e heróis”

  Fui descobrindo Belo Horizonte, me adaptando, me colocando à disposição da luta política preta. Organizava os passos para minha oficina de teatro negro, participava de reuniões na CUT, no Sindicato dos Bancários, das festas no Centro Cultural UFMG, da capoeira angola no GCAP, no Alto Vera Cruz, sob o comando de Léo, nutrido pelo amor e cuidado de Valdete Cordeiro e o sorriso de sua filha Marilda.

  Ali, já ambientado com as ruas geladas, as ladeiras erguidas como pirâmides e as pessoas solidárias, gentis e acolhedoras das Minas Gerais, fundamos o Teatro Negro e Atitude. Eu, Marilda Cordeiro e Benilda Brito demos o primeiro respiro do que viria a ser um teatro para pretos e pretas: com personagens ficcionais pretos, pesquisa fundamental de nosso modo de vida, nossos sonhos e máscaras enquanto povo em disputa, nossa magia ancestral e criativa. Eu tinha encontrado meu lugar no mapa, entre as montanhas. Agora bastava esperar evandro nunes . E ele veio.

  evandro surgiu solar, rasgando a estrada, partindo de sua bela cidade de Santa Luzia, e de uma família preta e discreta, tranquila e africana na mágica que é ser africano na diáspora sem se perder na autonegação. evandro veio em minha direção afirmativo e preparado para mudar o que tocava em seu redor. Ele trazia o frescor das matas fechadas da Lagoa do Nado, trazia a vontade de criação que o teatro nos imprime em cada página de nossa pele. evandro veio, e eu estava ali atento.

  Eu amava aquele menino magérrimo que fazia do próprio corpo suporte para sua arte, sua moda que antecedeu no tempo o que vivemos hoje como libertação do corpo preto, trans, fluido nas cidades. evandro construía sapatos plataforma com metais, plásticos e glitter, usava saias coloridas, calças pantalonas com desenhos fascinantes, como uma obra andante de Basquiat. Ele aparecia nos eventos à noite, e eu temia por sua integridade física e sua segurança. Eu pretendia sempre protegê-lo, cuidar dele contra os cultivadores do ódio, os homofóbicos e racistas de todos os lados da cidade. Mas evandro andava como intocável, espiritualmente protegido, como um sacerdote poderoso da beleza e da arte.

  Nos conectamos pela arte, pelo canto, pela dança, pelas fabricações de máscaras e pelo poder de ser e amar pela criação e além da criação.

  Nos encontramos em vários momentos importantes daquela década de lutas e de construção de espaços de solidariedade preta. Trabalhamos em torno da articulação cultural nas favelas, organizando a juventude para ser sujeito de sua organização. Assim construímos espaços de debates na Serra, no Alto Vera Cruz, na Barragem Santa Lúcia e no Morro do Papagaio. As oficinas de pedra-sabão com seu Orlando, as oficinas de corte e costura no Centro Catequético da Barragem, as atividades na Vila Atena, onde surgiu outro tesouro de nossa história: a linda e preta Vanessa Beco.

  Daí sugerimos e construímos o I Encontro da Juventude Negra e Favelada, atividade com várias linhas de ação que colocava os jovens na frente da cena. Formamos uma juventude que hoje movimenta a cidade em variados contextos — jornalismo, línguas, negócios, política, religião. Nós sacudimos Belo Horizonte.

  A Secretaria de Cultura de Belo Horizonte abriu vagas para um grande programa cultural na cidade e, nesse, uma grande e acertada oficina de teatro que tinha como diretor-geral Marcus Voguel, experiente diretor teatral, carioca, leitor finíssimo, que se tornou nosso mestre e amigo. Eu participei dessa audição; evandro nunes também. Tratava-se da experiência teatral que resultaria num grande espetáculo para a cidade. Eu não fui até o final: as exigências da militância preta, a luta contra a brutalidade policial, o massacre do Taquaril, as incursões violentas da PM no Aglomerado Santa Lúcia me desviaram desse mergulho integral no teatro.

  Eu, evandro nunes , Josemeire Alves e Rai Nonato resolvemos retomar as ações do Teatro Negro e Atitude e montar um espetáculo com uma outra estética e com uma ética definida. Queríamos sair daquele teatro de jogral, do teatro escola, repudiar o teatro didático e reconhecer no público gente com direito à surpresa, fundamentalmente sujeitos complementares ao nosso espetáculo, fazendo suas escolhas no decorrer da encenação.

  Nisso Marcus Voguel, com sua demolição e reconstrução do espetáculo, foi fundamental. Ele nos deu um caminho, foi mestre, amigo, conselheiro para coisas da arte e fora dela. Tenho certeza de que esta biografia sobre evandro seria incompleta sem citar a importância de Marcus Voguel em nossas vidas.

  Eu sempre fui intenso, ansioso, apressado. evandro , paciente e determinado. Josemeire Alves trazia a doçura e a concentração para nosso meio. Convidamos Rai Nonato para fazer a direção geral, Josemeire para a produção, e eu e evandro fomos atores de um espetáculo que deveria ser impactante, estar vinculado a nosso povo, ter uma tessitura e um ritmo afro-baiano-mineiro. Era o que tratávamos em longas conversas, longas reuniões, longos eventos entre nós para nos manter unidos naquele projeto.

  Muitos encontros em minha casa, no bairro São Geraldo. Encontros temperados com poesia, música e uma comida que unia culturas pelo sabor e cheiro: moqueca, feijão-tropeiro, cozido, frango caipira, feijoada baiana e cravinho. Minha casa era uma espécie de centro cultural que reunia artistas, políticos, militantes negros e negras. Era um espaço de solidariedade e luta, tipo um quilombo entre tempos de paz e revolta, como é a casa de evandro hoje.

  Entre lá, a Barragem Santa Lúcia e a Lagoa do Nado foi sendo concebido como um pacto de magia o espetáculo Conversa de Dois. Muita leitura e análise do texto Diário de um Detento, de Mano Brown, do Racionais MC’s; leitura e análise de Conversa de Bois, de Guimarães Rosa; Elogio da Loucura, de Erasmo de Roterdã; análise de fotos, ensaios e textos sobre prisão. Fomos compondo nossa livre adaptação de um espetáculo único.

  Nossa trajetória estava consolidada, nossa amizade forjada pela arte e pelo enfrentamento à opressão. A risada escancarada de evandro, ouvida por divindades, seus planos que sempre impactavam a história coletiva.

  O Teatro Negro e Atitude, assim, construiu, pelo espetáculo Conversa de Dois, uma estética e uma ética definidas, nítidas, sem curvas, ali começou de fato o TNA, pela beleza e pelo esmero e pela forma como se deu a produção — com parcerias entre senhoras das favelas, sindicatos de luta, feijoadas e rodas de capoeira para arrecadar fundos, a construção do cenário e figurino que me fez sorrir por semanas, por ver nascer do nada aquele engenho de reconstrução temporal — nos levou para dentro do tempo de Guimarães Rosa e seus personagens tão sólidos.

  Nossos ensaios tão vibrantes e extensos em tempo e fibra: ensaiar no Teatro de Arena da Lagoa do Nado, bater texto em nossas casas, manter a militância em dias, preparar, compor, fazer existir.

  Estreámos e demos conta de ter um grande público presente. A poesia de Mano Brown nos foi servida como elemento de força, o figurino que nos colocava em prontidão, o cenário moldado em madeira, montável e tão conectado aos nossos corpos, a música, os instrumentos musicais e os locais em que encenamos: teatros, praças, favelas, vilas e cadeias.

  O Teatro Negro e Atitude, o Conversa de Dois e evandro nunes esse Cristal Azeviche: mundos intactos de minha vida em Minas.


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