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Carta a evandro nunes: crítica e cena em travessia na curva dos 30

Já não recordo exatamente onde e quando lhe conheci, evandro. 

Porém, me ficou na lembrança uma conversa que tivemos em 2015 (ou 2016), na qual discorremos sobre as diferenças e semelhanças entre a cena desenvolvida pela Cia. Espaço Preto (cofundada por mim e outros tantos estudantes negros e negras dos cursos de Teatro da UFMG, em 2014) e aquela produzida há anos pelo Teatro Negro e Atitude. Falamos longamente das singularidades poéticas, formativas e políticas de dois grupos surgidos em momentos históricos profundamente distintos. Nós da Espaço Preto, artistas-pesquisadores, despontamos num contexto universitário em que as políticas de ação afirmativa – em especial as cotas – já eram uma realidade. Nossos horizontes de reinvindicações, anseios criativos, bagagens artístico-teóricas e experiências de mundo nem sempre coincidiam com os repertórios, gramáticas, pautas e modos de fazer das gerações anteriores. Creio que você já nem se lembra disso, evandro, mas aquele despretensioso bate-papo foi deveras significativo sobretudo pelo seu cuidado em ouvir um jovenzinho interiorano, na faixa dos vinte e poucos anos, que principiava a entender as riquezas do teatro negro. Essa imagem se fixou em mim, ao vê-lo como um sujeito possuidor de uma generosa e sincera escuta

Pouco tempo depois assisti à Àbíkú – uma das montagens mais significativas do TNA. Você não compunha o elenco, mas impressionou-me fortemente a sua direção ao mesmo tempo segura e carinhosa: de um lado vi a firmeza de um encenador que manejava e orquestrava plasticamente os elementos, recursos e signos teatrais; do outro, era evidente a sua afetuosa compreensão diante do trágico destino de uma família assombrada pela morte. Como diretor e coautor do texto, você não exibia simplesmente a dor e o pesar daquelas vidas negras, mas nos fazia observar, acima das desgraças e desventuras, a dignidade daquelas humanidades feridas. 

Estes dois encontros com a sua presença no mundo foram decisivos.

À medida que eu, como estudioso e criador, me inteirava dos nossos teatros negros, seja os do passado, seja os do presente, fui entendendo melhor o seu importante papel no palco artístico e político do país. Você, ao lado de inumeráveis criadores e criadoras das artes cênicas negras, é um dos artesãos de uma virada histórica incontornável no teatro brasileiro. Para que compreendas melhor o meu argumento, evandro, precisaremos, antes, relembrarmos que, em 2025, celebramos também os 30 anos de um clássico basilar para as teatralidades negras e para todo o pensamento cênico no Brasil: refiro-me ao majestoso livro A Cena em Sombras, publicado pela primeira vez em 1995. Ao introduzir a segunda edição revista, Leda Maria Martins, autora, rainha, mestra e farol, nos oferece um breve, mas significativo balanço histórico em que se destaca o acúmulo de transformações, disputas e criações levadas a efeito pelas veredas dos teatros negros nestas últimas décadas: 

O cenário teatral dos anos 1990 até a atualidade em muito se modificou. Nesse período, muitos grupos, coletivos e artistas negros e negras, quer em grupo, quer individualmente, se multiplicaram, trazendo à cena brasileira diversas e plurais perspectivas cênicas, dramatúrgicas, teóricas e críticas, resultado de densa pesquisa, utilizando, muitas vezes, os pressupostos criativos de matrizes performáticas negras e da própria história do teatro negro no Brasil. Esses grupos criaram redes de pertencimento, enfrentam os debates, se fortalecem com ânimo e resiliência. O teatro brasileiro, com brilho, enegreceu”. 

Entre as muitas iniciativas importantes nesse processo sintetizado por Leda, é possível evocar, para citar apenas algumas mais longevas, o Bando de Teatro Olodum, o Teatro Negro e Atitude, o Núcleo Afro-Brasileiro de Teatro de Alagoinhas (NATA), a Cia. dos Comuns, a Cia. Black e Preto, os Crespos, o Coletivo Negro, bem como todas as edições do Fórum de Performance Negra – insurgências coletivas que há décadas vêm enegrecendo o panorama artístico brasileiro. Volto a dizer: você, amado evandro, é também arquiteto destas novas paisagens cênicas do país, tanto no interior do TNA quanto nos seus voos com outras companhias. A indignação, a garra, o suor e o gesto de artistas negros e negras, como você, nos ensinaram que as portas não vão se escancarar venturosamente, tampouco os espaços passarão a nos receber com os braços abertos. Todas as mudanças e avanços (muitos, inclusive, instáveis, como nos mostra nossa atual vida política) são frutos de árdua luta.

Querido evandro, os seus 30 anos de trajetória, com todas as irradiações simbólicas e poéticas decorrentes dessa proeza, reforçam a minha convicção de que a história dos teatros de grupo de Belo Horizonte (e por extensão de todo o estado) também devem muito à pertinácia e à impetuosidade do TNA, que, diga-se de passagem, também celebra três radiantes decênios de reexistência. Os cursos e oficinas ministrados nas margens, os trabalhos artístico-pedagógicos com atores e não-atores, as apresentações realizadas nas periferias, quebradas e presídios, a aguerrida militância antirracista nos mais distintos projetos, os diálogos com as comunidades e os territórios fora dos grandes centros, o cuidado com as dramaturgias negras para as infâncias, o mergulho nos acervos culturais, performativos e epistêmicos de tradições afro-brasileiras e africanas... Tudo isso concede às novas gerações, direta e indiretamente, um vasto repertório de saberes, insubordinações e persistências contra violentas estruturas que, ainda hoje, insistem em rebaixar nossas criações artísticas. Atualmente, falar sobre artivismo, decolonialidade e racialidade nos teatros contemporâneos de BH é uma realidade muito mais sedimentada. Você e o TNA, porém, ousaram sonhar em uma época, não muito distante daqui, em que “coisas de preto” não atraiam curadorias, estavam apartadas dos editais e frequentavam com imensa dificuldade festivais e mostras. Esta gigantesca contribuição poética, ética e pedagógica do TNA constitui para nós um precioso legado. Você é parte viva e pulsante dessa trajetória. O grupo, é escusado dizer, tem um papel crucial em seus processos de construção e politização como sujeito negro. Com ele você dirigiu, atuou, escreveu, cantou e poetizou outras realidades: trocamos ideias e prosas nas Conversas de dois (1998); repensamos o passado e as neuroses do país em A lata de lixo da história (2000), tragamos dissabores, remorsos e silêncios sob A sombra da goiabeira (2018), entre outros espetáculos: verdadeiras utopias, fantasias e devires imaginativos. 

Felizmente, esta história não está apenas inscrita na tua pele, evandro, mas também grafada nas páginas de sua apaixonada produção intelectual. O seu significativo livro, O Teatro Negro e Atitude no Tempo – O Tempo no Teatro Negro e Atitude, fruto de sua dissertação de mestrado defendida na Faculdade de Educação da UFMG, é um saboroso bálsamo contra as chagas do esquecimento presentes em certas memórias, narrativas e antologias do teatro belo-horizontino. Diligente e responsável, você faz questão de frisar outras personalidade e iniciativas negras, tanto as antecessoras quanto as coetâneas, cujas luminosidades abriram caminhos para a sua geração, tais como Marlene Silva, Zora Santos, grupo Odum Orixás, Ricardo Aleixo e a própria criação do FAN, em 1995 – outro insigne balzaquiano. Assim como o artista, o pesquisador evandro compreende as dimensões coletivas e comunais da luta.

Esta é uma importantíssima dimensão de suas facetas, pois, também no mundo acadêmico o seu axé e a sua ancestralidade se fazem presentes, conduzem e energizam um pensamento que não separa, nem hierarquiza arte e vida, atuação e docência, estética e ética. Nosso estimado Mestre e Doutor em Educação, Evandro Nunes de Lima, nos ensina que a Estética da Atitude e a Poética da Negrura são sopros de beleza e revolta que nos impulsionam a ampliarmos radicalmente nossa imaginação política, a reinventar relações com e no mundo, a reaprendermos princípios calorosos e inquietos a fim de fundar existências plenas, férteis e plurais. 

O teatro mudou muito desde os tempos em que você cofundou, com Regina Lúccia, o grupo amador Corpo e Alma ou desde o seu ingresso no curso de teatro do NET. De lá pra cá, o quadro é bastante diverso especialmente para as cenas negras. Além dos velhos problemas – o racismo adquiriu novas feições, mas continua avassalador – e a despeito de certos avanços significativos – as teatralidades negras constituem hoje um dos quadrantes mais explosivos e sofisticados do palco brasileiro contemporâneo –, a minha geração lida com certas angústias características do estágio avançado do neoliberalismo: o esvaziamento midiático e mercadológico das noções de representatividade; as maquinações do capitalismo que se apropria de nossas histórias, alegrias, lutas e dores (estas últimas principalmente), tornando-as commodities para o deleite ou a [suposta] redenção das plateias brancas; o agigantamento de um EU imperioso e egocêntrico em tantas dramaturgias negras (aquilo que Leda Martins descreveu como tirania da subjetividade), cuja consequência mais patente é a atrofia da capacidade de imaginar outros universos, formas e linguagens. Em todos esses anos de estrada, percebo que você, tão sorridente e loquaz, não se deixou levar por estas perigosas miragens, finas armadilhas que vendem inclusão – termo já questionável – mas entregam aprisionamento. Enxergo na tua postura um compromisso ferrenho com as formas coletivas de viver e criar. 

Corpo de quilombagens contemporâneas, o seu ser não é uma ilha isolada, mas articulações de movimentos, teias de afetos e diálogos. Avistamos você no Negraria e no Grupo dos 10, com as Pretas em Movimento e em outros grupos e levantes, espargindo axé, enegrecendo com vigor e leveza a cidade. Qualquer um que passeie rapidamente pelo Portal Memória da Gabinetona, encontrará seu rosto, tingido de noite, em incontáveis ações, ajudando a construir um outro projeto de sociedade para todos, todas e todes. Na política institucional, você levou a sua mais preciosa pérola: o fulgor artístico. Sua bagagem pedagógica e criativa foi fundamental para as experiências com o Teatro do Oprimido cujas críticas e formulações sacudiram, como você bem sabe, as estruturas da Câmara Municipal de Belo Horizonte. Nesse contexto surgiu, em 2017, o grupo AZDiferentonas, que produziu intervenções, performances e ações formativas importantes para concebermos outras formas de fazer política. Lá também estavam as suas digitais, evandro. Na Rede Afro LGBT a sua liderança deixa a capital mineira, por vezes tão careta e quadrada, com as cores dos afetos brilhantes e revoltosos. O Prêmio Anyky Lima, recebido por você, coroa uma vida de combates em nome da liberdade e da pluralidade de amores contra cerceamentos e conservadorismos. 

Você descende de uma sofisticada linhagem de artistas negros e negras para os quais não há divisas intransponíveis entre arte, educação, política e vida social. Estética e ativismo se afetam reciprocamente, pois a criação poética é também uma possibilidade de forjar outras realidades, linguagens, imagens e relações entre as pessoas, destronando sistemas desumanizantes. Abdias Nascimento, ao refletir sobre as distintas facetas do Teatro Experimental do Negro, sentenciou com firmeza: 

“Não é que eu tenha abandonado o teatro para começar a fazer política. As pessoas parecem não captar o sentido do teatro. O teatro também é política. O erro está em pensar que o Teatro é só o “teatro”: só a montagem, só o espetáculo. Enquanto organização, o TEN priorizava outras atividades, que não a simples encenação de espetáculos. Isso é dialética. Em certas horas você encontra mais facilidades para realizar uma coisa, em outras não”.

O palco, para criadores do seu inquieto feitio, a exemplo de Thereza Santos ou Hilton Cobra, é a própria carne do mundo, em que guerra e festa, lutas e sonhos, se emaranham desafiadoramente. Nestes casos, a militância não apequena ou reduz os voos criativos. Ao contrário, ela o estimula a ir mais longe na edificação de um teatro que não se quer neutro, incolor ou inerte. Encontramos você, evandro, nas ribaltas iluminadas; entrincheirado, como professor, nas salas de aula; aluno saltitante nos bancos universitários; festivo nas ruas com seu pulsante coração carnavalesco; saturado de revolta (e doçura) nos parlamentos. Diante dessa miríade de ações e interesses, eu não saberia dizer onde começa ou termina a sua arte, pois, a meu ver, ela permeia, colore e jorra das múltiplas relações que você tece nos territórios educacionais, teatrais e políticos concomitantemente. A exemplo de ananse, a mitológica e sagaz aranha do imaginário Ashanti, você, com muita esperteza e muitos bracinhos, tece seus encantos em variegadas áreas: pedagogia, produção cultural, música, direção, atuação, performance e poesia (por falar nisso, poderia me dar alguma previsão de quando o seu livro pretopoetapreta ganhará uma nova edição?).

Por tais razões, estes 30 anos de carreira são ao mesmo tempo singulares e coletivos; pertencem a você e a tantas outras gentes pretas. Nos arabescos da ancestralidade, somos formados por muitas outras e muitos outros que nos antecederam, sulcaram caminhos imprevistos e propiciaram veredas transformadoras. Você, ao lado de incontáveis companheiros e companheiras, expandiu possibilidades e narrativas para mim e muitos outros que virão. Assim, podemos encarar estes 30 anos como um belo recorte de enfrentamentos e invenções que atravessam numerosas eras. Quando festejamos a vida (em vida!) de um artista preto comprometido com seu povo e com a derrocada das iníquas estruturas de violência, gerações do passado, do presente e do futuro se alegram. Nesse mundo assolado por brutais desencantamentos, esse feito não é qualquer coisa. 

Eu pude ver-te no palco muito menos do que eu gostaria, evandro. Ao contrário dos meus colegas de profissão no cinema ou nas artes visuais, nós, críticos de teatro (sobretudo os que ainda estão na mocidade) deparamo-nos mais duramente com a efemeridade das coisas, a mortalidade dos vivos e a inelutável passagem do tempo: não contemplei, por exemplo, a sua atuação no musical Zumbi (2012), dirigido pelo saudoso João das Neves. Lá estava você, sob a batuta de um verdadeiro mestre, instituindo, pelo sortilégio cênico, as obstinadas terras palmarinas, reanimando um cânone da dramaturgia brasileira moderna em companhia de Benjamin Abras, Júlia Bertolino, Rodrigo Jerônimo entre outros parceiros notáveis. Dos espetáculos que não testemunhei, restam-me as fotografias, as filmagens (quando existem), as dramaturgias, alguns eventuais resquícios cenotécnicos, fragmentos críticos e, acima de tudo, frutífera imaginação para reinventar, com fantasia, o calor de uma cena não vista presencialmente. Apesar disso, também pude apreciar seu trabalho teatral em algumas boas ocasiões. Em Madame Satã (2015) e em In Sã: o universo do rosário em nós (2012), por exemplo, as suas atuações, conquanto díspares, mostravam-se revestidas de charme, enigma e misticismo. No primeiro espetáculo, você se enamorava dos sambas e das seduções num cabaré; no segundo, mergulhava nos fantásticos delírios do mago-artífice Arthur Bispo do Rosário. 

Mas em Prelúdio a Ismael Ivo (2023), resultado de mais uma feliz colaboração com Anderson Feliciano, havia em você um vigor, uma inteireza, um fascínio e uma qualidade de presença ímpares. Tive a sensação de que todos os seus anos de trabalho, seu cabedal de reminiscências e a intensidade de suas múltiplas vidas estavam ali redimensionados na densa calmaria de cada gesto. Você e o tempo se irmanavam, brincavam, dançavam no mistério da criação. Creio que compreendi na prática noções como corpo-tela, de Leda Martins, e corpo negro pulsante, de Marcos Alexandre. Não pretendo prolongar-me, pois uma longa e entusiasmada crítica já escrevi. Gostaria apenas de salientar um último aspecto: justamente nesta peça, que também celebrava sua trajetória, você, sabiamente, se afastou do autoelogio e da verborragia fáceis. Rod Rodgers, o renomado dançarino afro-estadunidense, há muito assinalou: “O maior elogio que um artista pode fazer ao seu público é convidá-lo a testemunhar a sua exploração das máximas possibilidades de sua arte, baseada em toda a sua experiência”. É precisamente isso o que você propõe à audiência. 

Já encaminhando-nos para o final eis mais uma nota pessoal, evandro: em 2025, eu completei 30 anos de vida. É também desta condição que lhe endereço esta carta como uma saudação a estes diálogos intergeracionais e a tudo o que você instaura. A sua arte preenche minha crítica de inquietudes. Ora, a cena constrói os seus críticos e vice-versa, em um processo dialético, tenso e complexo de retroalimentação e interlocuções em que ambas as partes se provocam, se analisam e, potencialmente, se transformam. A pujança dos teatros negros, povoados de experimentalismos, ousadias e princípios estéticos alternos exige uma outra crítica, interessada, arguta e capaz de ler as complexidades dessas negruras cênicas. Reciprocamente, esta crítica em negro-perspectiva formula pensamentos, conceitos e debates que atravessam a produção artística, repensa e reinventa as histórias dos teatros no Brasil, alterando o panorama intelectual destas artes vivas. Por isso, a sua celebração também é nossa, isto é, de todos esses quilombos/mocambos artísticos a que chamamos de teatralidades negras.

Veja como isso é belo: eu e você, dois homens negros celebrando 30 anos (cada qual à sua maneira), festejando a pulsação da vida (apesar de tantas coisas), sonhando com outros mundos (não abrimos mão da imaginação) e fortalecendo afetos (nutrimos, reciprocamente, carinho, sensibilidade e respeito por nossas inegociáveis humanidades). Ou seja, tudo aquilo que um certo projeto de Brasil insiste em aniquilar. Mas seguimos de mãos dadas na contramão da morte, rumo ao sol de onde partem raios de luz e poesia. 


Muito obrigado, Evandro.

Um forte abraço.

Guilherme Diniz – crítico teatral e pesquisador

Belo Horizonte, outubro de 2025.


 
 
 

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