A árvore cresceu: 30 anos do Teatro Negro e Atitude e alguns apontamentos sobre a Sombra da goiabeira.
- Teatro Negro e Atitude
- 25 de nov. de 2025
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Em O Teatro Negro e Atitude no tempo / O tempo no Teatro Negro e Atitude, publicação que é resultado da pesquisa de mestrado do ator, diretor e pesquisador evandro nunes, podemos conhecer um pouco da história de um dos primeiros coletivos de teatro negro de Belo Horizonte. O TNA, como é carinhosamente conhecido, foi concebido, em 1993, por Hamilton Borges Walê no Seminário Nacional de Universitários Negros, na Universidade Federal da Bahia, e tinha como principal pilar o propósito de tirar jovens da zona de vulnerabilidade e torná-los sujeito da própria história. As raízes mineiras do TNA surgiram em 1994 em uma oficina ministrada, no sindicato dos bancários, por Walê a um grupo de jovens militantes do Movimento Negro Unificado. Concebido com ideais panfletários e didáticos, suas primeiras ações foram recitar poemas do livro Cantares do meu povo de Solano Trindade pelos becos e vielas dos aglomerados e favelas da capital mineira. Neste primeiro movimento, o coletivo criava um teatro negro de enfrentamento ao racismo e apostava numa “ação prática que pudesse chamar a atenção da sociedade para as questões do racismo estrutural e estruturante que invisibiliza e silencia negros, favelados e periféricos” (nunes, 2021, p.54). Em meados de 1995, a formação inicial se desfez e o coletivo ressurgiu compreendendo que para além de seu caráter político era importante também seus aspectos poéticos, o que levou os integrantes a buscarem formação para desenvolverem suas habilidades. Desse modo, construindo uma poética atravessada por elemento das culturas negras, tais como criação de personagens a partir da tessitura dos movimentos da capoeira e do maculelê, tendo como referências o Teatro Experimental do Negro e o Bloco Afro Ilê Aiyê, o TNA é uma referência fundamental para pensarmos a historiografia dos teatros negros no Brasil.
No ensaio Notas de um filho nativo o escritor e ativista estadunidense James Baldwin nos confidencia: “Nunca cheguei a conhecer meu pai muito bem. Nossa relação era difícil, em parte porque tínhamos em comum, cada um a seu modo, o vício do orgulho teimoso. Quando ele morreu, me dei conta de que quase nunca havia falado com ele” (Baldwin, 2020, p.113). Ao compartilhar como era sua relação com o pai Baldwin aciona histórias pessoais, mas, que também reverbera vivências coletivas que dizem das relações afetivas que pais e filhos negros podem construir em uma sociedade que insiste em desumanizá-los, deixando marcas profundos que são difíceis de serem elaboradas.
Parece-me haver nesse fragmento do ensaísta indícios interessantes para pensarmos a nova montagem do TNA que há décadas vem se dedicando a pesquisa e criação de obras que borram o imaginário colonial. Sempre apostando em textualidades, corporeidades e musicalidades provenientes da presença de corpos negros em cena o grupo a partir do que nunes definiu como estética da atitude, narrativas entrelaçadas a ancestralidade, a memória, a religiosidade forjadas a partir de uma perspectiva negra, construiu um importante legado para cena belorizontina. Sua proposição desarticula a ideia de uma estética pensada apenas como “uma filosofia ou teoria da arte e da beleza” e a molda como “uma maneira de habitar o espaço, um lugar especifico, uma maneira de olhar e de se tornar” (hooks, 2019, p.212). Desse modo as propostas e os projetos de criação do grupo convertem-se numa pedagogia da insurgência, um aquilombamento, núcleo de pesquisa, formação e criação. Articulações que vem sustentado as bases do coletivo e se tornando referência para pensarmos as histórias dos teatros negros.
Nos seus 30 anos de existência já foram várias peças encenadas. Dentre elas, destaco as que assisti que são, A viagem de um barquinho (2003), A saga do caboco capiroba (2007), A lenda de Ananse: um herói com rosto africano (2007), Àbíkù (2011), A toque de caixa (2018) e a Sombra da goiabeira (2018/2024). Algumas destas produções citadas tem como foco as infâncias. As produções destinadas a este público convertem-se em espaços de visibilidade, de experimentação e também deslocamentos de imaginários. Quase sempre tratado com pouca atenção, apesar de muitas iniciativas recentes de valorização deste segmento das artes cênicas, o teatro feito para as infâncias, principalmente infâncias negras, criados pelo grupo “anima pelo que apresenta de universos imaginados, de ludicidade, de experimentação, enfim, o jogo e a invenção, sem necessariamente está comprometido apenas com intencionalidades pedagógicas”. (Feliciano, nunes e Rosa, 2018). Agindo assim desarticulam olhares que sempre esperam que produções de artistas negros sejam encaixadas nesses lugares.
Porém, tomo como farol para a escrita desse texto a última montagem. Não por se tratar da que vi mais recentemente, mas principalmente pelo conteúdo poético-crítico do texto dramatúrgico, que se originou de um conto escrito pelo multiartista e produtor Marcus Carvalho. Além da montagem minimalista e da atuação emocionante de nunes, o espetáculo, ao meu ver, apresenta um desvio nas produções poético do grupo. Desvio proporcionado, não só pelo acumulo do tempo, mas principalmente pelas escolhas, tanto formais, quanto conceituais, que culminaram no que pudemos vivenciar a sombra daquela goiabeira. Destaco a dramaturgia original e com personagens complexos, a musicalidade proposta e a sensibilidade na atuação, aspectos que foram sendo aprimorados em relação as outras montagens.
Em A Sombra da goiabeira, que assisti pela primeira vez em 2018 e recente em 2024, o TNA constrói de maneira sensível uma paisagem que conflui poeticamente com os universos das negruras, compreendida aqui como um conceito “semiótico, definido por uma rede de relações” que “evidenciam o cruzamento das tradições e memórias orais africanas com todos os outros códigos e sistemas simbólicos, escritos e/ou ágrafos, com que se confrontam” (Martins, 1995, p.26). Movimento que defini a árdua pesquisa do grupo. Ao tencionar essas redes de relações evidenciando estes cruzamentos, aquele mesmo ‘vício do orgulho teimoso’ e o ‘quase nunca havia falado com ele’ do ensaio de Baldwin surgem como fios desencapados que estruturam a dramaturgia da peça.
Aos moldes de August Wilson, um dos mais importantes dramaturgos afro estadunidense, a escrita de Carvalho não se refuta a tocar em questões complexas da construção de nossas existências ao abordar o último encontro de um pai a beira da morte com seu filho que agora também é pai. O que poderia ser um simples acerto de contas torna-se um convite a reflexão ao modo como são forjadas as relações afetivas de homens negros em contextos que negam suas humanidades e violentam seus desejos.
Devido ao grave estado de saúde do pai, depois de 13 anos sem se falarem motivados por um conflito familiar, o filho decide ir ao encontro daquele que lhe deu a vida, mas que não soube perdoa-lo. Sentado, no mesmo lugar de sempre, aquele que nunca pôde esquecer da humilhação que sofreu, é duro como uma rocha e não consegue esquecer a magoa que carrega no peito.
De repente estamos todos sentados à sombra da goiabeira elaborando com eles questões que dizem sobre a tensa relação que estabelecemos com os nossos que vieram antes e com aqueles que vieram depois. Em alguma medida somos aquele pai que não sabe como perdoar e aquele filho que deseja construir uma outra relação com o próprio filho. Com olhar apurado Carvalho não se rende ao binarismo vítima e algoz e não abre mão da tensão, construindo personagens complexas e cheias de nuances. Como vivermos nossas verdades sem negarmos a verdade do outro? Como construir pontes para os abismos que nos unem?
Nunes, como numa espécie de entidade, salta sem rede de proteção na proposta. Entregue e sem medo do desconhecido instaura um espaço/tempo paralelo que sensibiliza pela relação que estabelece entre silêncio e presença. Em cena desempenhando o papel tanto do pai, quanto do filho, na medida exata do que o material precisa, dança e nos convida para dançar. Parece brincar em cena. Com a força de sua presença descontrói as linhas imaginarias que nos separam da ficção e instaura um jogo que amplia as noções de realidade. Nos embriaga com o cheiro forte da goiaba cortada de maneira ritualística. Quando nos convida a come-las rompe de vez as noções propostas por um teatro tradicional e aponta indícios para pensarmos nas poéticas da negrura forjadas no âmbito da pesquisa que desenvolvem. E por falar em negrura, Carvalho equilibrou de maneira harmônica cada signo originário das culturas de matriz africana que compunham a cena como seu próprio corpo/voz, tambor, berimbau. Do seu corpo/voz “advinha um saber aurático, uma caligrafia rítmica, corpora de conhecimento” (Martins, 2023, p.36) que nos embalava e nos transportava para debaixo da sombra das nossas próprias goiabeiras. Em total sintonia com nunes, compunha uma paisagem sonora repleta de imagens que potencializavam ainda mais o que vinha sendo narrado.
Como há alguns anos venho acompanhando as montagens do coletivo, arrisco-me a apontar uma maturidade artística do mesmo. Maturidade entendida aqui de maneira espiralada, apresentando rastros da elaboração do projeto consistente que os artistas articulam na construção em torno das ideias da estética da atitude, proposta que articula estética, ética e política, e que não abre mão da complexidade de nossas existências e nem das tensões inerentes que surgem dos conflitos quando estamos abertos a nos relacionarmos com o mundo.
Viva o Teatro Negro e Atitude!
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Ficha Técnica:
Direção e texto: Marcus CarvalhoAtuação: evandro nunes
Cenário e criação: Clécio Lima
Figurino: Halyson FélixPreparação corporal: Marilene SantosConsultoria antropológica: Lorena Braga
Acompanhamento psicológico: Larissa AmorimProdução: Marcus Carvalho e Kelly SpínolaRealização: Teatro Negro e Atitude
BALDWIN, James. Notas de um filho nativo. São Paulo: Editora Companhia das Letras - Tradução de Paulo Henriques Britto, 2020.
DINIZ, Guilherme. Remissão - entre o ato e o silêncio. Disponível em: https://www.horizontedacena.com/remissao-entre-o-ato-e-o-silencio/ . acesso em 28 de fevereiro de 2024.
FELICIANO, Anderson; nunes, evandro; MÁRIO, Rosa. Por cima do mar da ilusão eu naveguei. Disponível em: http://segundapreta.com/por-cima-do-mar-da-ilusao-eu-naveguei/ . Acesso em 22 de fevereiro de 2024.
hooks, bell. Anseios: raça, gênero e políticas culturais. Tradução Jamille Pinheiro. São Paulo: Elefante, 2019.
MARTINS, Leda Maria. A cena em Sombras. São Paulo: Perspectiva, 1995.
___________________. Performance do tempo espiralar, poéticas do corpo-tela. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021.
nunes, evandro. O Teatro Negro e Atitude no tempo: o tempo no Teatro Negro e Atitude. Belo Horizonte: Javali, 2021.



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